Estratégia e organização

Você não precisa estar apaixonado pelo trabalho numa terça-feira às oito da manhã.

Há manhãs em que o trabalho é apenas trabalho. Isso não apaga a competência. Uma reflexão sobre paixão, pressão para sorrir e condições para trabalhar com dignidade.

Mulher de cerca de 55 anos viaja num transporte público de manhã, pensativa, junto à janela.

Às oito menos cinco, Teresa está no autocarro, com uma mão na mala e outra no telemóvel. Dormiu pouco, deixou uma máquina de roupa por estender e vai a pensar na encomenda que precisa de resolver antes do almoço. No ecrã surge uma frase: “Se fizer aquilo que ama, nunca terá de trabalhar.” Teresa olha para o trânsito. Gostava de apresentar o autor da frase à folha de cálculo das nove.

Teresa é uma personagem fictícia. A cena não pertence a uma pessoa entrevistada; serve para abrir uma conversa que muitas pessoas conhecem por dentro. Há manhãs em que o trabalho é apenas trabalho. Vamos porque assumimos responsabilidades, precisamos do rendimento, respeitamos os colegas ou queremos fazer uma tarefa bem feita. O entusiasmo pode chegar mais tarde. Às vezes, não chega nesse dia.

Isso não transforma automaticamente ninguém num profissional desinteressado. Talvez esteja na altura de perguntar por que razão começámos a exigir uma declaração de amor juntamente com a pontualidade.

A competência não tem de entrar aos saltos

Imagine duas pessoas na mesma equipa. Uma fala com energia, oferece-se para apresentar projetos e usa frequentemente a palavra paixão. A outra é reservada, deteta erros antes de chegarem ao cliente e cumpre o combinado sem transformar cada entrega numa celebração. Ambas podem ser excelentes. Ambas podem falhar. O volume do entusiasmo não permite decidir qual trabalha melhor.

O problema começa quando a disposição visível substitui a avaliação do trabalho. “Pareceu pouco motivada” pode significar uma tarefa abandonada. Mas também pode significar que alguém não sorriu durante uma reunião, pediu esclarecimentos ou apontou um prazo irrealista. Convém distinguir as situações antes de lhes dar a mesma nota.

Há funções que exigem cordialidade, atenção e cuidado no contacto com outras pessoas. Isso é compatível com profissionalismo. Pedir respeito a um cliente não é o mesmo que exigir felicidade permanente. Uma pessoa pode estar num dia difícil e, ainda assim, atender com correção, reconhecer os seus limites e pedir apoio quando precisa.

Também não vale usar esta distinção como desculpa para tratar os outros mal. Não precisamos de amar cada minuto do trabalho; continuamos responsáveis pelo que fazemos com os nossos minutos e com os dos outros.

Quando “pensar positivo” impede uma conversa útil

O otimismo pode ajudar uma equipa a atravessar dificuldades. O humor pode aliviar uma manhã pesada. Há líderes que encorajam sem negar o problema, e isso tem valor.

A positividade torna-se obrigatória quando só há espaço para a versão confortável dos acontecimentos. Alguém diz que a carga aumentou e recebe um conselho sobre atitude. Uma trabalhadora pergunta pelos critérios de promoção e ouve que deve agradecer a oportunidade. Um colega identifica um erro e passa a ser a pessoa que “traz negatividade”.

Neste artigo, a expressão positividade obrigatória descreve essa regra informal de esconder desconforto. Não é um diagnóstico clínico. É uma maneira de nomear situações em que parecer bem passa a ser mais importante do que poder explicar o que não está bem.

Por isso, a conversa fica mais pobre. Se os problemas só podem entrar na reunião depois de vestidos de boas notícias, faltará informação a quem decide. Entretanto, a pessoa que precisa de ajuda aprende a preparar uma boa expressão facial antes de preparar o pedido.

Foi uma tensão semelhante que explorámos em “A empresa parece maravilhosa no LinkedIn. Os funcionários foram avisados?”. Aqui, a fotografia dá lugar ao quotidiano: podemos existir no trabalho sem representar continuamente a versão mais animada de nós próprios?

Mulher de cerca de 55 anos viaja num transporte público de manhã, pensativa, junto à janela.
Nem todas as manhãs começam com entusiasmo. O compromisso também pode chegar em silêncio. Ilustração gerada com IA para Negócios com Alma.

Gostar, valorizar e precisar são coisas diferentes

A investigação sobre motivação oferece uma distinção útil. A teoria da autodeterminação considera diferentes razões para agir e destaca a importância da autonomia, da competência e da ligação aos outros. Em termos acessíveis, importa ter alguma margem de escolha, sentir que se consegue realizar o trabalho e pertencer a relações onde existe respeito.

O artigo de Gagné e Deci sobre motivação no trabalho, de 2005, ajuda a compreender que uma atividade pode ser assumida pelo valor que a pessoa lhe reconhece, mesmo quando não é interessante em si mesma. É uma referência teórica, não uma receita capaz de explicar todas as experiências profissionais.

Pense numa tarefa de conferir documentos. Talvez ninguém a colocasse na lista de programas ideais para uma tarde livre. Ainda assim, alguém pode valorizar a precisão porque sabe que um erro prejudica um cliente ou um colega. Há compromisso nesse cuidado. Não precisa de haver romance com o arquivo.

Precisar do salário também é uma razão legítima. A renda da casa não aceita propósito em substituição da transferência. Reduzir essa necessidade a falta de ambição desvaloriza pessoas que sustentam famílias, procuram estabilidade ou atravessam uma fase em que a segurança pesa mais do que a aventura.

Estas razões podem, aliás, coexistir. Podemos apreciar uma parte da profissão, detestar outra, gostar dos colegas e desejar melhores condições. Ainda assim, essa mistura de sentimentos não diminui a seriedade com que trabalhamos.

Depois dos 50, recomeçar não exige uma vocação inédita

Para uma mulher em recomeço profissional, a pressão pode vir em dose dupla: encontrar trabalho e provar que está extraordinariamente entusiasmada com a reinvenção. Como se atualizar competências só contasse quando acompanhado de uma história inspiradora e uma fotografia ao nascer do sol.

Há quem queira abrir um negócio. Outras mulheres preferem regressar a uma função conhecida. Para algumas, o objetivo é aprender uma ferramenta e conseguir um horário compatível com a vida que têm. Apesar das diferenças, todas estas escolhas merecem respeito, mesmo que não pareçam impressionantes nas redes.

Recomeçar pode, por exemplo, passar por rever um currículo e perceber que uma competência continua a ter utilidade. A partir daí, torna-se mais fácil fazer uma candidatura com critérios claros. Ou escolher um trabalho que deixe energia para viver, mesmo que não seja o trabalho de sonho.

É importante não confundir realismo com resignação. Uma opção possível hoje não define todas as opções de amanhã. Mas exigir paixão como condição de dignidade acrescenta culpa a quem já está a fazer escolhas dentro de limites financeiros, familiares ou de saúde.

A pergunta pode ser menos grandiosa e mais útil: “Que condições me permitem trabalhar bem e continuar a ter uma vida?”

Um dia sem vontade não é o mesmo que um trabalho que faz mal

Precisamos também de evitar o movimento contrário: chamar normalidade a tudo. Uma manhã aborrecida não é equivalente a semanas de medo, humilhação ou incapacidade de recuperar. A ausência de entusiasmo, por si só, não permite concluir que existe doença, nem descartar sofrimento persistente.

A Organização Mundial da Saúde identifica cargas excessivas, baixo controlo sobre o trabalho, insegurança e discriminação entre os riscos para a saúde mental. As suas orientações incluem intervenções sobre as condições de trabalho, além de apoio às pessoas. O foco não se limita a ensinar cada trabalhador a suportar melhor o que lhe acontece.

Se o sofrimento persiste, interfere no sono ou na vida diária, procurar apoio de um profissional de saúde pode ajudar a compreender a situação. No trabalho, a saúde ocupacional e os canais adequados da organização podem fazer parte da resposta. Não é necessário esperar por uma explicação perfeita para pedir ajuda.

Aceitar que nem todos os dias são entusiasmantes não significa aceitar desrespeito. No artigo sobre ioga, fruta e exaustão, essa diferença é central: um benefício simpático não resolve, sozinho, uma organização do trabalho que precisa de mudar.

Avental de trabalho junto de um desenho infantil, um regador e sapatos à entrada de casa.
Uma vida com sentido pode ter muitas fontes, dentro e fora do trabalho. Ilustração gerada com IA para Negócios com Alma.

Na prática: trocar a cobrança de entusiasmo por uma pergunta concreta

A proposta seguinte é um exercício editorial de reflexão, não um teste psicológico. Pode ser feita numa folha, em poucos minutos, sem obrigação de a mostrar a ninguém.

Comece por descrever uma situação recente, em vez de classificar a sua personalidade. “Na terça-feira tive três pedidos urgentes e não sabia qual escolher” oferece informação. “Sou uma pessoa desmotivada” fecha a conversa antes de ela começar.

Depois separe o que torna a tarefa difícil. Falta informação? Há excesso de trabalho? O conteúdo é repetitivo? Existe conflito? Ou foi apenas um dia de menor energia? Estas possibilidades pedem respostas diferentes. Uma noite mal dormida não se resolve com uma mudança de carreira; uma carga cronicamente excessiva não se resolve apenas com uma noite bem dormida.

Escolha então um pedido proporcional ao problema e à margem de segurança que tem. Pode ser: “Consigo concluir A ou B hoje; qual deve avançar primeiro?” Ou: “Para aprender esta ferramenta, preciso de uma hora sem interrupções.” Ou ainda: “Gostava de perceber os critérios usados nesta decisão.”

Há locais onde falar implica riscos reais. Nesses casos, preparar exemplos, procurar aconselhamento de confiança ou recorrer a um canal apropriado pode ser mais prudente do que enfrentar a situação sem apoio. Dizer “basta impor limites” a quem teme perder o emprego é fácil quando o salário em risco é o dos outros.

Por fim, observe a resposta. Houve esclarecimento, ajuste ou uma data para retomar o assunto? Ou recebeu apenas um elogio à resiliência? Uma conversa não basta para julgar uma organização inteira. Contudo, pode ajudar a perceber se existe disponibilidade para transformar informação em ação.

O que uma chefia pode fazer já amanhã

Uma pequena mudança está na pergunta de abertura. Em vez de exigir que todos anunciem uma vitória, a chefia pode perguntar: “O que está a dificultar o trabalho esta semana?” Não precisa de pedir confidências pessoais nem transformar a reunião numa sessão de terapia. Precisa de permitir respostas relacionadas com o trabalho e de não castigar quem as dá.

Além de escutar, importa reconhecer comportamentos concretos. Por exemplo, a pessoa que resolveu um problema com cuidado merece reconhecimento, mesmo que não seja a mais expansiva da sala. Da mesma forma, quem identifica um risco pode estar a proteger o resultado, não a estragar o ambiente.

Vale também tornar explícitas as prioridades. Se tudo é urgente, o trabalhador fica encarregado de escolher e de adivinhar qual escolha será criticada depois. Uma orientação clara poupa energia que nenhum discurso motivacional consegue devolver.

A chefia não controla todas as circunstâncias. Pode, contudo, explicar o que depende de si, levar problemas a quem decide e dar seguimento ao que prometeu. A confiança precisa dessa continuidade, sobretudo nos dias em que a equipa tem pouca vontade de participar em mais uma dinâmica com post-its.

Podemos gostar do trabalho e querer ir para casa

Há pessoas para quem a profissão ocupa um lugar central na identidade. Outras encontram grande parte do sentido da vida na família, na arte, na comunidade, na aprendizagem ou numa caminhada sem notificações. Não existe uma proporção obrigatória.

Assim, o trabalho pode ser importante sem ter de responder a todas as nossas necessidades. Pode oferecer rendimento, utilidade, relações e crescimento, deixando espaço para outras coisas. Por isso, querer terminar o dia não é uma confissão de fracasso profissional.

No artigo “O trabalho terminou. Por que razão o nosso cérebro ainda está numa reunião?”, refletimos sobre essa passagem entre trabalhar e recuperar. Aqui fica uma ideia complementar: não precisamos de provar amor ao trabalho para merecer a possibilidade de o interromper.

Equipa de diferentes idades conversa numa oficina sobre prioridades e organização do trabalho.
Uma conversa sobre prioridades pode ajudar mais do que uma cobrança de entusiasmo. Ilustração gerada com IA para Negócios com Alma.

Teresa chega, finalmente, ao escritório. Cumprimenta os colegas, abre a encomenda pendente e encontra um erro que teria atrasado a entrega. Resolve-o. Não sente vontade de escrever um manifesto sobre paixão. Sente satisfação por ter feito bem aquela parte do dia.

Talvez, à tarde, se entusiasme com uma ideia. Talvez esteja apenas contente por chegar a casa a horas. O seu trabalho não perde valor por causa disso.

Vê-se neste artigo? Já sentiu que precisava de parecer entusiasmada para que reconhecessem a sua competência?

O trabalho pode pedir o nosso compromisso. Não precisa de exigir uma declaração de amor todas as manhãs.

Negócios com Alma · NEXA360®

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